O artigo
procura demonstrar que o estruturalismo é uma construção teórica iniciada pelo
etnólogo Claude Lévi- Strauss. A partir das suas postulações, o entendimento
estruturalista ganhou corpo e se desdobrou em dois planos. O primeiro
fundamentou uma das correntes filosóficas que animaram a segunda metade do
século XX. O segundo irradiou sua epistemologia para os mais diversos campos
das ciências humanas e sociais. Dentre esses campos figura o das ciências da
gestão, entendida como compreendendo os estudos organizacionais e os estudos administrativos.
A perspectiva estruturalista propõe
o abandono do exame particular dos objetos a que se consagra. Estuda as
estruturas subjacentes ao organizar e ao administrar, formadas pelos elementos
que os caracterizam enquanto traços inerentes ao espírito humano. Desconsidera
as organizações e as formas de administrar, tomadas como manifestações de
outras coisas - como segmento social, agente econômico, ator político, etc. -
que não elas mesmas. Seu propósito é a constituição de modelos arquetípicos de
todas as organizações e de todas as formas de organizar.
Nem sempre o método estruturalista e
os métodos que derivam do estruturalismo são facilmente entendidos pelos
pesquisadores. Esta dificuldade é observada no embasamento de dissertações, de
teses e de pesquisas aplicadas. Tem raízes no desconhecimento dos preceitos
elementares da epistemologia estruturalista original, no distanciamento entre o
estruturalismo e os métodos predominantes no campo da administração, geralmente
afiliados ao positivismo lógico, nas barreiras idiomáticas e, principalmente,
na carência de exposições sobre o emprego prático do método estruturalista
ajustado ao campo das ciências da gestão.
O estruturalismo nasceu de uma
circunstância recorrente nas pesquisas empíricas. É uma tentativa de superação
de um problema que aflige grande número de estudiosos no campo social: o da
multiplicidade infinita de situações díspares. Em termos objetivos, essa
dificuldade se expressa da seguinte forma: quanto maior o rigor no detalhamento
da pesquisa, mais os dados e informações coligidos parecem descrever uma
situação única, só verificável naquele espaço e naquele momento específicos.
A estrutura tanto se fundamenta nas
relações sociais como as revela. Ela é um instrumento de explicação. Como tal,
não considera a gênese das relações sociais e as vivências (a continuidade
entre o vivido e o real da fenomenologia), mas o que ocorre efetivamente (o
real) passível de descrição lógico-matemática.
As formas de descrever as estruturas
são variadas. Elas podem ser objeto de uma enunciação linear, ou de grafos, em
que a representação dos elementos (vértices) ligados por linhas que denotam as
relações. As conexões podem ser recíprocas ou orientadas, isto é, considerar o
sentido em que se dá a conexão (setas). Podem vir sob a forma de matrizes
referidas às correlações entre os elementos. Podem ser apresentadas como
relações paritárias, como nos sociogramas, que retratam as diversas formas de
sociabilidade, ou como relações hierárquicas, como nos organogramas, etc. O
fundamental é que tenham sentido.
A base científica criada por
Lévi-Strauss, se propõe justamente isto: desenvolver uma teoria do logicamente
possível, construída a partir do real concreto. É fruto de uma convicção
teórica, da insatisfação e do acaso. A noção teórica foi apreendida de Marcel
Mauss (1968), um antropólogo de grande envergadura, e que sustentava ser “a
vida social um mundo de relações simbólicas” (1973a). A insatisfação procedia
do contraste entre o verificável na vida social, notadamente na vida das
sociedades primitivas, e os ensinamentos que daí se podiam tirar. O acaso
envolveu as peripécias da derrota francesa no começo da Segunda Guerra Mundial
e a comunidade de intelectuais refugiados em Nova York, tempo e lugar em que
Lévi-Strauss tem acesso aos progressos teóricos da lingüística estruturalista
de Saussure.
Ao término do passo observacional
tínhamos um modelo relacional concreto de um conjunto de elementos concretos.
Ao término da interpretação estrutural devemos ser capazes de enunciar uma
estrutura relacional formalizada de um conjunto determinado de elementos
ordenados. A análise estrutural parte, portanto, da i) conceitualização dos
elementos, isto é, a passagem do concreto ao formal (ao genericamente
aplicável) e, ii) da análise interpretativa, isto é, a determinação dos
elementos e das relações, para chegar a realizar uma construção lógica, isto é,
uma ordenação estruturada dos elementos.
No estruturalismo, a lógica antecede
a associação. Isto é, o estruturalismo sustenta que entendemos as associações
mediante a lógica. É o contrário do positivismo, com o qual estamos mais
afeitos, que sustenta que entendemos a lógica humana mediante associações. Por
este motivo o modelo deve anteceder a análise. Não interessa ao estruturalismo,
por exemplo, uma tipologia de organogramas, mas a determinação que nos faz
dividir o trabalho segundo critérios determinados limitados (pela função, pelo
produto, pelo tempo, pelo lugar e as demais distinções da organogramação).
Alega-se, contra o estruturalismo,
que as estruturas não podem ser demonstradas como universais, isto é, que não
temos como saber, cientificamente, se o espírito (a racionalidade) é o mesmo
para todos os seres humanos. O estruturalismo concorda que as subjetividades,
por definição, são incomparáveis e incomunicáveis. Mas isto não leva à
particularização da racionalidade. Ao contrário, argumentam os estruturalistas,
se interagimos, como de fato o fazemos, é porque temos algo em comum para além
da subjetividade, algo de que não temos consciência, isto é, uma vida mental
cuja estrutura é compartilhada por toda a humanidade. A estrutura inata do
espírito humano (Lévi-Strauss, 1973b).
O método estruturalista considera o
objeto como totalidade passível de descrição a partir dos elementos que a
constituem e das relações que mantém entre si. O estruturalismo, ao construir
um método de análise formal, pretende dar objetividade ao estudo do humano. Ao
destacar a dimensão sincrônica do objeto, possibilita a sua descrição enquanto
entidade autônoma, facultando a emancipação dos estudos organizacionais e
administrativos dos vínculos que os sujeitam às preocupações de outras ciências
humanas e sociais. Em essência, leva à pratica do organizar e do administrar
uma possibilidade concreta de teorização.
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