21 de agosto de 2012

O primeiro estruturalismo: método de pesquisa para as ciências da gestão


O artigo procura demonstrar que o estruturalismo é uma construção teórica iniciada pelo etnólogo Claude Lévi- Strauss. A partir das suas postulações, o entendimento estruturalista ganhou corpo e se desdobrou em dois planos. O primeiro fundamentou uma das correntes filosóficas que animaram a segunda metade do século XX. O segundo irradiou sua epistemologia para os mais diversos campos das ciências humanas e sociais. Dentre esses campos figura o das ciências da gestão, entendida como compreendendo os estudos organizacionais e os estudos administrativos.
            A perspectiva estruturalista propõe o abandono do exame particular dos objetos a que se consagra. Estuda as estruturas subjacentes ao organizar e ao administrar, formadas pelos elementos que os caracterizam enquanto traços inerentes ao espírito humano. Desconsidera as organizações e as formas de administrar, tomadas como manifestações de outras coisas - como segmento social, agente econômico, ator político, etc. - que não elas mesmas. Seu propósito é a constituição de modelos arquetípicos de todas as organizações e de todas as formas de organizar.
            Nem sempre o método estruturalista e os métodos que derivam do estruturalismo são facilmente entendidos pelos pesquisadores. Esta dificuldade é observada no embasamento de dissertações, de teses e de pesquisas aplicadas. Tem raízes no desconhecimento dos preceitos elementares da epistemologia estruturalista original, no distanciamento entre o estruturalismo e os métodos predominantes no campo da administração, geralmente afiliados ao positivismo lógico, nas barreiras idiomáticas e, principalmente, na carência de exposições sobre o emprego prático do método estruturalista ajustado ao campo das ciências da gestão.
            O estruturalismo nasceu de uma circunstância recorrente nas pesquisas empíricas. É uma tentativa de superação de um problema que aflige grande número de estudiosos no campo social: o da multiplicidade infinita de situações díspares. Em termos objetivos, essa dificuldade se expressa da seguinte forma: quanto maior o rigor no detalhamento da pesquisa, mais os dados e informações coligidos parecem descrever uma situação única, só verificável naquele espaço e naquele momento específicos.
            A estrutura tanto se fundamenta nas relações sociais como as revela. Ela é um instrumento de explicação. Como tal, não considera a gênese das relações sociais e as vivências (a continuidade entre o vivido e o real da fenomenologia), mas o que ocorre efetivamente (o real) passível de descrição lógico-matemática.
            As formas de descrever as estruturas são variadas. Elas podem ser objeto de uma enunciação linear, ou de grafos, em que a representação dos elementos (vértices) ligados por linhas que denotam as relações. As conexões podem ser recíprocas ou orientadas, isto é, considerar o sentido em que se dá a conexão (setas). Podem vir sob a forma de matrizes referidas às correlações entre os elementos. Podem ser apresentadas como relações paritárias, como nos sociogramas, que retratam as diversas formas de sociabilidade, ou como relações hierárquicas, como nos organogramas, etc. O fundamental é que tenham sentido.
            A base científica criada por Lévi-Strauss, se propõe justamente isto: desenvolver uma teoria do logicamente possível, construída a partir do real concreto. É fruto de uma convicção teórica, da insatisfação e do acaso. A noção teórica foi apreendida de Marcel Mauss (1968), um antropólogo de grande envergadura, e que sustentava ser “a vida social um mundo de relações simbólicas” (1973a). A insatisfação procedia do contraste entre o verificável na vida social, notadamente na vida das sociedades primitivas, e os ensinamentos que daí se podiam tirar. O acaso envolveu as peripécias da derrota francesa no começo da Segunda Guerra Mundial e a comunidade de intelectuais refugiados em Nova York, tempo e lugar em que Lévi-Strauss tem acesso aos progressos teóricos da lingüística estruturalista de Saussure.
            Ao término do passo observacional tínhamos um modelo relacional concreto de um conjunto de elementos concretos. Ao término da interpretação estrutural devemos ser capazes de enunciar uma estrutura relacional formalizada de um conjunto determinado de elementos ordenados. A análise estrutural parte, portanto, da i) conceitualização dos elementos, isto é, a passagem do concreto ao formal (ao genericamente aplicável) e, ii) da análise interpretativa, isto é, a determinação dos elementos e das relações, para chegar a realizar uma construção lógica, isto é, uma ordenação estruturada dos elementos.
            No estruturalismo, a lógica antecede a associação. Isto é, o estruturalismo sustenta que entendemos as associações mediante a lógica. É o contrário do positivismo, com o qual estamos mais afeitos, que sustenta que entendemos a lógica humana mediante associações. Por este motivo o modelo deve anteceder a análise. Não interessa ao estruturalismo, por exemplo, uma tipologia de organogramas, mas a determinação que nos faz dividir o trabalho segundo critérios determinados limitados (pela função, pelo produto, pelo tempo, pelo lugar e as demais distinções da organogramação).
            Alega-se, contra o estruturalismo, que as estruturas não podem ser demonstradas como universais, isto é, que não temos como saber, cientificamente, se o espírito (a racionalidade) é o mesmo para todos os seres humanos. O estruturalismo concorda que as subjetividades, por definição, são incomparáveis e incomunicáveis. Mas isto não leva à particularização da racionalidade. Ao contrário, argumentam os estruturalistas, se interagimos, como de fato o fazemos, é porque temos algo em comum para além da subjetividade, algo de que não temos consciência, isto é, uma vida mental cuja estrutura é compartilhada por toda a humanidade. A estrutura inata do espírito humano (Lévi-Strauss, 1973b).
            O método estruturalista considera o objeto como totalidade passível de descrição a partir dos elementos que a constituem e das relações que mantém entre si. O estruturalismo, ao construir um método de análise formal, pretende dar objetividade ao estudo do humano. Ao destacar a dimensão sincrônica do objeto, possibilita a sua descrição enquanto entidade autônoma, facultando a emancipação dos estudos organizacionais e administrativos dos vínculos que os sujeitam às preocupações de outras ciências humanas e sociais. Em essência, leva à pratica do organizar e do administrar uma possibilidade concreta de teorização.

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