O
Capítulo do livro de Guerreiro Ramos mostra a abordagem substantiva para a
organização que inclui duas tarefas distintas: a) o desenvolvimento de um tipo
de análise capaz de detectar os ingredientes epistemológicos dos vários cenários
organizacionais; b) o desenvolvimento de um tipo de análise organizacional
expurgado de padrões distorcidos de linguagem e conceptualização.
Alguns
estudiosos de sistemas e comunicação estão, igualmente, atentos às questões
epistemológicas pertinentes à teoria da organização.Foi amplamente analisada
por Joseph Weizenbaum (1976) a influência do computador sobre a autopercepção
do indivíduo. A dimensão epistemológica dos sistemas sociais, usualmente, não
recebe adequada atenção. A tecnologia é o conjunto
vigente de normas e praxes consolidadas, através do qual as coisas são feitas e
os resultados conseguidos. A teoria é ó conjunto de regras epistemológicas
segundo o qual a realidade interna e extema é interpretada e tratada, em termos
práticos. Em qualquer sistema essas dimensões são interdependentes, de modo
que a modificação numa delas conduz a modificações correspondentes nas outras
e, portanto, em todo o sistema. É possível visualizarem-se essas dimensões como
círculos, ou como constituindo uma “estrutura circular” (Schon, 1971, p. 38). A
dimensão epistemológica dos sistemas sociais, usualmente, não recebe adequada
atenção.
Nenhuma mudança significativa ocorreu nos
pressupostos epistemológicos da análise organizacional, desde Taylor. Em outras
palavras, a teoria da organização nunca examinou, em termos de crítica, a
epistemologia inerente ao sistema de mercado. E os pontos cegos da atual teoria
da organização podem ser caracterizados da seguinte forma:
1. O conceito de racionalidade
predominante na vigente teoria organizacional parece afetado por fortes
implicações ideológicas. Conduz à identificação do comportamento econômico
como constituindo a totalidade da natureza humana.
2. A presente teoria da
organização não distingue, sistematicamente, entre o significado substantivo e
o significado formal da organização. Essa confusão toma obscuro o fato de que
a organização econômica formal é uma inovação institucional recente, exigida
pelo imperativo da acumulação de capital e pela expansão das capacidades de
processamento características do sistema de mercado.
3. A presente teoria da
organização não tem clara compreensão do papel da interação simbólica, no
conjunto dos relacionamentos interpessoais.
4. A presente teoria da
organização apóia-se numa visão mecano- mórfica da atividade produtiva do
homem, e isso fica patente através de sua incapacidade de distinguir entre
trabalho e ocupação.
Na
medida em que os teoristas da organização continuem a neglicenciar esses
pontos, estarão cedendo a uma abordagem reducionis- ta do desenho dos sistemas
sociais. Reexame da noção de racionalidade
A situação em que se encontra a
noção de racionalidade, no campo da teoria da organização, ilustra suà
insuficiente qualificação teórica.
Aristóteles
jamais considerou o mercado como o sistema primordial da sociedade e nunca
pensou que os requisitos psicológicos do mercado se transformassem nas normas
da vida social em seu conjunto. É certo que tinha clara noção da racionalidade
do comportamento econômico, mas em seu conceito normativo de uma boa sociedade
esse tipo de racionalidade só incidentalmente influiria sobre a existência
humana. O campo da teoria da organização não consegue compreender a
peculiaridade histórica das organizações de caráter econômico e de suas
funções. A organização que constitui o foco da atenção da teoria
organizacional, em stricto sensu, é, intrinsecamente, vinculada a uma sociedade
de tipo sem precedentes — a sociedade de mercado. Nenhuma sociedade pode
existir sem algum tipo de sistema, que assegura ordem na produção e na
distribuição dos bens. Mas isso não envolve a existência de instituições
econômicas distintas; normalmente, a ordem econômica é meramente uma função da
social, na qual está contida.
Nas
sociedades não-mercantis, a escassez de meios não constitui princípio formal
para a organização da produção e para a escolha hurriana de modo geral, uma vez
que a sobrevivência do indivíduo é, normalmente, garantida pela eficácia dos
critérios sociais globais (não da organização formal) de reciprocidade,
redistribuição e troca. A economia, aqui, está incrustada na tessitura social,
e não constitui um sistema auto-regulado.
A
família em nossa sociedade, na medida em que ainda preserva algumas funções da
família arcaica, partilha de seu caráter organizacional substantivo. No
entanto, graças à natureza da sociedade global contemporânea, a família está
antes se transformando num fenômeno de organização formal. Como tópico da
teoria padrão de organização, são artefatos sociais e, nesse sentido,
organizações formais de variados objetivos têm existido em todas as sociedades,
embora só se tenham transformado em objeto de estudo sistemático num estágio
recente da história.
As
finalidades da vida humana são diversas e só umas poucas, dentre elas,
pertencem, essencialmente, à esfera das organizações econômicas formais. Na
tentativa de criar e maximizar os recursos necessários a seu bem-estar
material, o indivíduo pode-se permitir atividades mecanomórficas, que são
aquelas específicas da organização econômica formal. No entanto, regras
operacionais, mecânicas, não se ajustam a todo o espectro da conduta humana. Uma
sociedade é formada quando representa para seus membros uma expressão da ordem
do universo. Em outras palavras, em toda sociedade existe, de um lado, uma
série de ações simbólicas em sua natureza, ações condicionadas, sobretudo, pela
experiência do significado e, de outro lado, atividades de natureza econômica, que
são acima de tudo condicionadas pelo imperativo da sobrevivência, da calculada
maximização de recursos.
A
presente teoria da organização é, sobretudo, uma expressão da ideologia de mercado,
e é da natureza dessa ideologia negligenciar os pontos envolvidos pela
interação simbólica. É por essa razão que os teoristas convencionais da
organização se sentem à vontade ao tratar de assuntos como confiança, virtude,
valia, amor, auto-atualização, autenticidade, no campo da organização
econômica, a que, por sua natureza, dificilmente os mesmos pertencem.
Muito bom ! ^^
ResponderExcluir