21 de agosto de 2012

Uma abordagem substantiva da organização



            O Capítulo do livro de Guerreiro Ramos mostra a abordagem substantiva para a organização que inclui duas tarefas distintas: a) o desenvolvimento de um tipo de aná­lise capaz de detectar os ingredientes epistemológicos dos vários cená­rios organizacionais; b) o desenvolvimento de um tipo de análise orga­nizacional expurgado de padrões distorcidos de linguagem e conceptualização.
            Alguns estudiosos de sistemas e comunicação estão, igualmente, atentos às questões epistemológicas pertinentes à teoria da organiza­ção.Foi amplamente analisada por Joseph Weizenbaum (1976) a influência do computador sobre a autopercepção do indivíduo. A dimensão epistemo­lógica dos sistemas sociais, usualmente, não recebe adequada atenção. A tecnologia é o conjunto vigente de normas e praxes consolidadas, através do qual as coisas são feitas e os resultados conseguidos. A teoria é ó conjunto de regras epistemológicas segundo o qual a realidade interna e extema é interpretada e tratada, em ter­mos práticos. Em qualquer sistema essas dimensões são interdependen­tes, de modo que a modificação numa delas conduz a modificações correspondentes nas outras e, portanto, em todo o sistema. É possível visualizarem-se essas dimensões como círculos, ou como constituindo uma “estrutura circular” (Schon, 1971, p. 38). A dimensão epistemo­lógica dos sistemas sociais, usualmente, não recebe adequada atenção.
            Nenhuma mudança significativa ocorreu nos pressupostos epistemológicos da análise organizacional, desde Taylor. Em outras palavras, a teoria da organização nunca examinou, em termos de crítica, a epistemologia inerente ao sistema de mercado. E os pontos cegos da atual teoria da organização podem ser caracterizados da seguinte forma:
1. O conceito de racionalidade predominante na vigente teoria or­ganizacional parece afetado por fortes implicações ideológicas. Con­duz à identificação do comportamento econômico como constituindo a totalidade da natureza humana.
2. A presente teoria da organização não distingue, sistematicamen­te, entre o significado substantivo e o significado formal da organi­zação. Essa confusão toma obscuro o fato de que a organização eco­nômica formal é uma inovação institucional recente, exigida pelo im­perativo da acumulação de capital e pela expansão das capacidades de processamento características do sistema de mercado.
3. A presente teoria da organização não tem clara compreensão do papel da interação simbólica, no conjunto dos relacionamentos inter­pessoais.
4. A presente teoria da organização apóia-se numa visão mecano- mórfica da atividade produtiva do homem, e isso fica patente através de sua incapacidade de distinguir entre trabalho e ocupação.
            Na medida em que os teoristas da organização continuem a ne­glicenciar esses pontos, estarão cedendo a uma abordagem reducionis- ta do desenho dos sistemas sociais. Reexame da noção de racionalidade
A situação em que se encontra a noção de racionalidade, no campo da teoria da organização, ilustra suà insuficiente qualificação teórica.
            Aristóteles jamais considerou o mercado como o siste­ma primordial da sociedade e nunca pensou que os requisitos psicoló­gicos do mercado se transformassem nas normas da vida social em seu conjunto. É certo que tinha clara noção da racionalidade do compor­tamento econômico, mas em seu conceito normativo de uma boa so­ciedade esse tipo de racionalidade só incidentalmente influiria sobre a existência humana. O campo da teoria da organização não consegue compreender a peculiaridade histórica das organizações de caráter econômico e de suas funções. A organização que constitui o foco da atenção da teoria organizacional, em stricto sensu, é, intrinsecamente, vinculada a uma sociedade de tipo sem precedentes — a sociedade de mercado. Nenhuma sociedade pode existir sem algum tipo de sistema, que assegura ordem na produção e na distribuição dos bens. Mas isso não envolve a existência de instituições econômicas distintas; normalmen­te, a ordem econômica é meramente uma função da social, na qual es­tá contida.
            Nas sociedades não-mercantis, a escassez de meios não consti­tui princípio formal para a organização da produção e para a escolha hurriana de modo geral, uma vez que a sobrevivência do indivíduo é, normalmente, garantida pela eficácia dos critérios sociais globais (não da organização formal) de reciprocidade, redistribuição e troca. A economia, aqui, está incrustada na tessitura social, e não constitui um sistema auto-regulado.
            A família em nossa sociedade, na medida em que ainda preserva algumas funções da família arcaica, partilha de seu cará­ter organizacional substantivo. No entanto, graças à natureza da socie­dade global contemporânea, a família está antes se transformando num fenômeno de organização formal. Como tópico da teoria padrão de organização, são artefatos sociais e, nesse sentido, organizações formais de variados objetivos têm existido em todas as sociedades, embora só se tenham transformado em objeto de estudo sistemático num estágio recente da história.
            As finalidades da vida humana são diversas e só umas poucas, dentre elas, pertencem, essencialmente, à esfera das organizações eco­nômicas formais. Na tentativa de criar e maximizar os recursos neces­sários a seu bem-estar material, o indivíduo pode-se permitir atividades mecanomórficas, que são aquelas específicas da organização econômi­ca formal. No entanto, regras operacionais, mecânicas, não se ajustam a todo o espectro da conduta humana. Uma sociedade é formada quando representa para seus membros uma expressão da ordem do universo. Em outras palavras, em toda sociedade existe, de um lado, uma série de ações simbólicas em sua natureza, ações condicionadas, sobretudo, pela experiência do significado e, de outro lado, atividades de natureza econômica, que são acima de tudo condicionadas pelo imperativo da sobrevivência, da calculada maximização de recursos.
            A presente teoria da organização é, sobretudo, uma expressão da ideologia de mercado, e é da natureza dessa ideologia negligenciar os pontos envolvidos pela interação simbólica. É por essa razão que os teoristas convencionais da organização se sentem à vontade ao tratar de assuntos como confiança, virtude, valia, amor, auto-atualização, au­tenticidade, no campo da organização econômica, a que, por sua natu­reza, dificilmente os mesmos pertencem.

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